MK Ultra: o projeto da CIA para controlar mentes
Em 1973 a CIA mandou destruir os arquivos de um programa secreto sobre a mente humana. O que sobrou conta uma história que ninguém deveria ter lido.

MK Ultra: o projeto da CIA para controlar mentes
Tem documento que só existe porque alguém falhou em destruí-lo. É o caso deste aqui. Cada linha que você vai ler sobrou de uma fogueira.
Janeiro de 1973. O diretor da CIA manda queimar os arquivos de um programa aprovado vinte anos antes e conduzido por cerca de uma década. O nome era MKULTRA. O objeto de estudo era a mente humana. E quase funcionou. A maior parte dos papéis virou cinza antes que qualquer investigador abrisse uma única pasta.
Quase. Porque tem uma coisa que nem a CIA controla: a contabilidade. Os recibos sobreviveram, esquecidos em outra sala. E foi por eles, por faturas e repasses, que o Senado dos Estados Unidos remontou, em 1977, o esqueleto de um programa que ninguém deveria ter lido.
A Câmara abriu o que restou. E o que restou tem porão. É pra ele que a gente vai descer.
Antes do fogo
O medo tem data de nascimento. Entre 1949 e 1952, no auge da Guerra Fria, a CIA criou projetos com nomes como BLUEBIRD e ARTICHOKE. O objetivo? Estudar interrogatório e controle de comportamento. E a pergunta que movia tudo estava escrita, com todas as letras, no material do ARTICHOKE:
Um indivíduo pode ser levado a agir contra a própria vontade e até contra leis fundamentais da natureza, como a autopreservação? (No original: "Can an individual be made to act against his will and even against such fundamental laws of nature as self-preservation?")
Leia de novo. Levar uma pessoa a agir contra o próprio instinto de sobrevivência. Não era ficção de roteirista. Era uma pergunta de trabalho. De governo.
Em 13 de abril de 1953, o diretor Allen Dulles aprovou o projeto nos moldes propostos por um homem chamado Richard Helms. E a coordenação técnica caiu nas mãos de um químico. Guarde a cara dele.

Nascia o MKULTRA. Guarde também o nome Helms. Ele volta no fim desta história. E volta segurando fósforos.
Não é acusação de jornalista. Não é teoria de fórum. É o próprio Estado americano, no papel oficial, definindo o que fez:
MKULTRA foi o principal programa da CIA envolvendo pesquisa e desenvolvimento de agentes químicos e biológicos capazes de uso em operações clandestinas para controlar o comportamento humano. (No original: "MKULTRA was the principal CIA program involving the research and development of chemical and biological agents capable of being used in clandestine operations to control human behavior.")
Controlar o comportamento humano. Com dinheiro do contribuinte americano. Durante uma década. Agora desce comigo pro que isso significava na prática.
O porão, cena 1: a cidade virou laboratório
Existe uma operação com nome de filme barato. Midnight Climax. E o que ela fazia é isto. A CIA montou casas seguras em San Francisco e em Nova York. Apartamentos comuns, do lado de fora. Por dentro, armadilhas.
O esquema, segundo o relatório do Senado, funcionava assim. Mulheres levavam homens até o apartamento. Os homens recebiam LSD sem saber. Não pediram. Não foram avisados. E do outro lado de um espelho de visão unilateral, um agente observava. Anotava. Via a droga fazer efeito num cidadão que só queria uma noite comum.
O nome desse agente era George Hunter White. Homem de narcóticos e colaborador da CIA, ele operava a casa de San Francisco e observava a partir da sala separada pelo vidro.

E não pensa que estou exagerando o alcance. O próprio Senado escreveu quem eram os alvos:
A CIA realizou administração clandestina de LSD a pessoas involuntárias e sem saber, em todos os níveis sociais, altos e baixos, americanos nativos e estrangeiros. (No original: "The CIA conducted surreptitious administration of LSD to unwitting nonvolunteer subjects at all social levels, high and low, native Americans and foreign.")
Todos os níveis sociais. Involuntários. Sem saber. Podia ser o seu avô voltando do trabalho. E ninguém, nunca, pediu licença.

O porão, cena 2: a queda de Frank Olson
Agora a história que mostra até onde isso ia. Ela tem nome, sobrenome e uma janela.
Frank Olson era bacteriologista do Exército, ligado a trabalho de guerra biológica. Em 19 de novembro de 1953, participou de um encontro à beira do Deep Creek Lake. E segundo a reconstrução oficial, alguém pôs LSD na bebida dele. Sem avisar. Esse alguém, na apuração, foi o químico que você viu lá em cima. Sidney Gottlieb.
O que veio depois foram nove dias. Olson entrou em crise aguda. Foi levado pra Nova York com Robert Lashbrook, ligado à CIA. E na madrugada de 28 de novembro, Frank Olson caiu da janela do décimo terceiro andar do Hotel Statler, em Manhattan. Morreu na calçada.

O relatório do Senado é seco sobre o começo da história:
O Dr. Olson foi uma das pessoas submetidas sem saber aos experimentos de LSD da CIA. (No original: "Dr. Olson was one of the unwitting subjects of the CIA's LSD experiments.")
A família de Olson passou vinte e dois anos sem saber da dosagem e da participação da CIA. Vinte e dois anos. Só em 1975 o governo revelou essa parte da história. O presidente Gerald Ford recebeu a viúva e os filhos na Casa Branca e pediu desculpas em nome do país:
Quero expressar a você e à sua família meu pesar em nome do povo americano. (No original: "I want to express to you and your family my regret on behalf of the American people.")
Mas a história não parou no pedido de desculpas. Em 1994, o corpo de Frank Olson foi exumado. O perito forense James Starrs examinou o crânio e encontrou lesões que, na avaliação dele, não batiam com uma queda simples. Existe uma tese, sustentada pela família e por alguns investigadores, de que Olson não caiu. De que foi jogado, porque sabia demais e ameaçava falar. O arquivo não traz um veredito de tribunal dizendo isso. Traz um homem dosado, uma janela no décimo terceiro andar, um crânio com marcas estranhas e vinte e dois anos de mentira à família. Eles dizem que foi acidente, ou suicídio. A perícia de 1994 abriu a dúvida. O resto, você decide.

O porão, cena 3: apagar uma pessoa em Montreal
Se a cena de Olson te apertou o peito, respira. Porque a próxima é a mais fria de todas. E aconteceu num hospital. Com bata branca, financiamento e pacientes que chegaram pedindo ajuda.
Montreal. Allan Memorial Institute. O psiquiatra Donald Ewen Cameron era uma sumidade, um nome respeitado no mundo inteiro. E ele desenvolveu duas ideias com nomes técnicos. Depatterning, que é despadronizar. E psychic driving, condução psíquica.

O dinheiro chegava até ele por uma fachada. Uma entidade de nome inofensivo, a Society for the Investigation of Human Ecology, que na verdade era um cano da CIA. O relatório do Senado confirma:
A Agência financiou a pesquisa do Dr. Cameron por meio da Society for the Investigation of Human Ecology. (No original: "The Agency funded Dr. Cameron's research through the Society for the Investigation of Human Ecology.")
E o que era feito com esse dinheiro? Relatos de pacientes e processos descrevem intervenções extremas chamadas de depatterning e psychic driving, com repetição gravada, eletrochoques e estados prolongados por drogas. O registro aqui é histórico. Não é sequência, método nem manual.
Relatos de sobreviventes e processos descrevem dano e perda de memória depois dessas intervenções. Pessoas que entraram buscando tratamento disseram ter saído sem reconhecer partes da própria vida e, em alguns relatos, os próprios familiares. Isso é relato clínico-legal, não resultado universal de um mecanismo.
O nome condução psíquica está preservado no relatório. A Câmara não vai te descrever o método, porque isto aqui é um arquivo, não um manual. O que importa você já sabe. Gente vulnerável, dentro de um hospital, foi exposta a intervenções extremas com financiamento secreto de uma agência estrangeira.


O porão, cena 4: quem não podia sair
Repara num padrão. Olson foi enganado. Os homens de San Francisco foram enganados. Os pacientes de Cameron estavam fragilizados. A tese enxerga um fio ligando tudo isso. O programa recorria a ambientes onde a liberdade de recusa era limitada ou inexistente.
O relatório do Senado descreve experimentos em prisioneiros, em pacientes psiquiátricos, em doentes terminais. No Addiction Research Center de Lexington, no Kentucky, pessoas presas por dependência química foram usadas em estudos com LSD e outras substâncias. Pensa na posição delas. Encarceradas. Dependentes. Numa instituição do Estado. Que liberdade real de recusa existe ali?
A pesquisa patrocinada pela CIA envolveu o uso de pessoas sem saber. (No original: "The CIA-sponsored research involved the use of unwitting subjects.")
O gângster Whitey Bulger, anos depois, contou ter sido dosado em testes na prisão. É o relato dele, uma alegação pessoal, e a Câmara marca isso como relato, não como sentença. Mas o padrão institucional não depende do testemunho de um homem só. Está no relatório. Na leitura desta tese, o programa foi buscar sujeitos onde o consentimento era mais fácil de ignorar. Nos que a sociedade já tinha decidido esquecer.

A escala: isso não foi um desvio
Você pode estar pensando que foram uns poucos agentes fora de controle. Uma célula doente dentro de uma agência sadia. O número desmonta essa ideia.
Os 149 subprojetos de MKULTRA envolveram 80 instituições. (No original: "The 149 subprojects of MKULTRA involved 80 institutions.")
Cento e quarenta e nove subprojetos. Oitenta instituições. Universidades. Fundações. Hospitais. Prisões. Empresas farmacêuticas. E lembra que esse é o número que sobrou depois do fogo. É o mínimo. O piso. Não o teto.
Isso não é um agente isolado num porão. É uma rede. Espalhada por dezenas de instituições da América do Norte, algumas sem saber a origem real do dinheiro, financiada por recursos que passavam por intermediários. Na leitura desta tese, foi montada pra ter a aparência que teve. A de nada.
A ordem de queimar
E aí a gente chega no Helms que eu pedi pra você guardar. Todo arquivo tem o momento em que alguém decide se ele vive ou morre. Para o MKULTRA, esse momento foi janeiro de 1973.
A maior parte dos registros de MKULTRA foi deliberadamente destruída em 1973 por ordem do então diretor da CIA Richard Helms. (No original: "Most of the MKULTRA records were deliberately destroyed in 1973 by order of then CIA Director Richard Helms.")
Pensa comigo. Helms propôs os moldes do programa em 1953. E foi o mesmo Helms que, vinte anos depois, mandou apagar o rastro. Não um funcionário pequeno. O diretor. E tem um detalhe que muda o peso de tudo:
A destruição desses registros não foi revelada ao Comitê Seleto do Senado até 1975. (No original: "The destruction of these records was not revealed to the Senate Select Committee until 1975.")
Dois anos de silêncio. O Congresso já investigando abusos, e a destruição ainda não revelada ao comitê. Agora junta tudo o que você leu neste porão. Midnight Climax. Olson. Cameron. Lexington. E pensa. Se essas foram as cenas que sobreviveram na contabilidade, nos testemunhos e nos fragmentos, o que poderia estar nos papéis destruídos por ordem de Helms?
Você já ouviu a versão que circula há décadas. A de que o MKULTRA passou da pesquisa e chegou ao produto final. O assassino programado. A mente que obedece sem saber que obedece. Os papéis que sobraram não chegam lá, e a Câmara não vai fingir que chegam. Mas repara na lógica do fogo. Documentos que poderiam provar ou enterrar essa história estariam entre os registros de operação. Foi principalmente esse acervo que a ordem de Helms destruiu. O Senado remontou parte do programa pela contabilidade. O conteúdo perdido não pode ser auditado por inteiro. O arquivo mostra só o que sobreviveu ao fogo. O resto, você decide.
O que a contabilidade entregou
A história poderia ter morrido ali. Arquivo morto, década de silêncio. Não morreu por causa de um erro de arquivamento.
As reportagens de dezembro de 1974 e as comissões Rockefeller e Church jogaram a CIA sob os holofotes em 1975. E em 1977, uma busca puxada por um pedido de acesso à informação achou sete caixas de documentos financeiros. Guardadas fora do acervo de operações. Poupadas do fogo por acaso. Foi com esse punhado de sobras que o Senado remontou o programa. Por orçamento, testemunho e fragmento.

Anos depois, pedidos de acesso forçaram a liberação de milhares de páginas, hoje espalhadas em acervos públicos. E toda página liberada carrega a mesma marca. Ela é uma sobrevivente. O documento que você lê hoje é a exceção. A regra foi o fogo.

O que fica
O MKULTRA deixou três coisas que a Câmara não esquece.
A primeira. O Estado não mente com histeria. Mente com método. Com casa segura, hospital de prestígio, fundação de fachada e ordem de destruição atribuída a quem tinha poder pra ordenar.
A segunda. As vítimas não eram números. Eram Frank Olson, com nome e sobrenome, caindo de uma janela. Eram sobreviventes de Montreal que relataram perdas de memória e de reconhecimento. Eram pessoas presas em Lexington, com liberdade limitada de recusa. Gente. Com dinheiro do contribuinte americano pagando a conta.
A terceira é a mais desconfortável. A gente só sabe disso porque a destruição falhou. E aí fica a pergunta que nenhum relatório responde. Quantos programas tiveram diretores mais caprichosos com o fogo?
O que o Senado remontou em 1977 é um esqueleto. As páginas que faltam não voltam. Mas o que sobrou está aí, público, com carimbo e assinatura, esperando você. A Câmara vai seguir descendo nesses porões, um por um. O arquivo continua.
Assinatura: O Arquivista
Fontes deste dossiê+
- U.S. Senate, Project MKULTRA, The CIA's Program of Research in Behavioral Modification, audiência conjunta, 1977. PDF integral: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/01/ProjectMKULTRA_Senate_Report.pdf
- The Black Vault, CIA MKULTRA Collection, acervo de documentos liberados via FOIA: https://www.theblackvault.com/documentarchive/cia-mkultra-collection/
- National Security Archive, Science, Technology and the CIA (NSAEBB 54): https://nsarchive2.gwu.edu/NSAEBB/NSAEBB54/
- Gerald R. Ford Presidential Library and Museum, acervo sobre o caso Olson e o pedido de desculpas de 1975: https://www.fordlibrarymuseum.gov/
- ABC News, Mission Mind Control: CIA and MKULTRA, 1979, vídeo em inglês no Internet Archive (transcrição e legenda PT pendentes de decupagem): https://archive.org/details/ABCNews_MissionMindControl-CIA_and_MKULTRA
- Internet Archive, CIA Secret Experiments, documentário de arquivo (em inglês; timecodes e legenda PT pendentes): https://archive.org/details/cia-secret-experiments
- C-SPAN2 via Internet Archive, audiência do Congresso sobre o projeto de controle mental da CIA (em inglês; transcrição PT pendente): https://archive.org/details/CSPAN2_20260701_065500_The_Hearing_Room_Lawmakers_Hold_Hearing_on_CIAs_Mind_Control_Project