A Medicina Rockefeller
Em 1910 um relatório pago por Rockefeller e Carnegie fechou metade das faculdades de medicina dos Estados Unidos. O que morreu com elas não voltou.

A Medicina Rockefeller
Quem te disse que o seu médico aprende tudo o que existe? Ninguém. Porque ele não aprende. Ele aprende o que foi aprovado. E existe uma teoria, que circula há décadas, sobre quem pagou pra decidir o que seria aprovado.
A teoria diz o seguinte. No começo do século XX, as famílias mais ricas da América compraram a medicina. Financiaram um relatório pra reprovar tudo que não coubesse numa régua cara. E, na década seguinte, quase metade das escolas de medicina fechou. As de ervas. As de homeopatia. As dos negros. As das mulheres.
A Câmara não vai te pedir pra acreditar nisso. Vai fazer algo melhor. Abrir o relatório de 1910 que está no centro da história. Ele existe. É público. Está em domínio público. E o que ele diz, com as próprias palavras, basta pra você nunca mais olhar um diploma de medicina do mesmo jeito.
O fiscal e as 155 fichas
Em 1908, a Carnegie Foundation contratou um homem chamado Abraham Flexner pra inspecionar as escolas de medicina dos Estados Unidos e do Canadá. Repara num detalhe que muda tudo. Flexner não era médico. Nunca tratou um paciente. Era um educador. Um avaliador. Com uma régua na mão.
Ele percorreu 155 escolas. E o relatório que saiu em 1910 é isto. Uma ficha atrás da outra. Escola por escola, cidade por cidade, com veredito de laboratório, de corpo docente, de hospital, de dispensário. Página após página classificando quem merecia existir e quem não merecia.

E o tom não era técnico frio. Era condenação. Sobre as escolas de homeopatia, por exemplo, Flexner escreveu com todas as letras:
Nove delas são irremediavelmente pobres. (No original: "Nine of them are hopelessly poor.")
Irremediavelmente pobres. Sem salvação. É esse o vocabulário de quem estava com a caneta. E a caneta valia porque tinha, por trás, uma coisa que a maioria daquelas escolas não tinha. Dinheiro. Guarde isso, porque a gente já chega lá.
Antes, um detalhe que a Câmara marca como fato, e nada além de fato. Abraham tinha um irmão. Simon Flexner. E Simon virou diretor do Rockefeller Institute for Medical Research. Não é prova de que um ditou o relatório do outro. É a foto de um mundo pequeno. Reforma, filantropia e laboratório, todos na mesma família, na mesma mesa de jantar.
O que o próprio relatório dizia ser
Você pode achar que estou forçando a leitura. Que "instrumento social" é interpretação minha. Não é. Mas presta atenção no sujeito da frase. Flexner falava do médico, não da escola:
O médico é um instrumento social. (No original: "The physician is a social instrument.")
E, quando falou da escola e da universidade, escreveu isto:
É importante que nossas universidades percebam que a educação médica é um empreendimento sério e custoso; e que elas rejeitem ou encerrem toda ligação com uma escola de medicina, a menos que estejam preparadas para pagar suas contas e colocar seu ensino em nível universitário. (No original: "It is important that our universities realize that medical education is a serious and costly venture; and that they should reject or terminate all connection with a medical school unless prepared to foot its bills and to pitch its instruction on a university plane.")
Instrumento social. Empreendimento sério e custoso. As expressões são dele, de 1910. Não de um teórico de internet em 2026. A leitura de que quem paga a estrutura ganha poder sobre o que ela produz pertence à tese deste dossiê. Mas as palavras do relatório estão aí.

O dinheiro que fez a régua valer
Aqui está a peça que transforma um relatório em terremoto. Um documento sozinho não fecha escola nenhuma. O que fecha é o que veio depois dele.
A régua de Flexner exigia laboratório. Hospital universitário. Professor em tempo integral. Ciência cara. E quem tinha dinheiro pra pagar tudo isso? Pouquíssimos. Aí entra o cofre. Em 1902, John D. Rockefeller já mantinha um enorme fundo de educação, o General Education Board. E no período da reforma, esse fundo despejou capital exatamente nas escolas que cabiam na régua de laboratório e hospital.

Repara na engenharia disso, porque é ela que importa. O dinheiro não fechava escola por decreto. Não precisava. Ele tornava financiável quem se adaptava ao padrão novo e deixava as frágeis numa corrida de capital que elas não tinham como vencer. Escola escolhida ganhava hospital e laboratório. Escola sem padrinho ganhava o silêncio. E silêncio, numa corrida de dinheiro, é sentença.
A Câmara para aqui e é honesta com você. A pesquisa não traz o valor exato que cada escola recebeu ou deixou de receber. Esses números exigiriam abrir os livros-caixa do fundo, um a um, e ninguém vai inventar cifra pra te impressionar. O que está documentado é o mecanismo. Quem organizava esse cofre filantrópico não era um médico eleito por ninguém. Eram nomes como Frederick Gates, o conselheiro que estruturava a filantropia de Rockefeller.

O extermínio, em números
Agora os números. Frios. Porque eles contam a história melhor que qualquer adjetivo.
Em 1910, quando o relatório saiu, o levantamento dos Estados Unidos e do Canadá reunia cerca de 155 escolas de medicina. Em 1920, restavam por volta de 85. Em 1930, algo perto de 66. Em vinte anos, mais da metade sumiu. E não foi um sumiço aleatório. Entre as que desapareceram estavam muitas que não tinham capital pra virar laboratório.
E foram as escolas que ensinavam outra coisa. A medicina eclética, que trabalhava com uma tradição de botânica e terapêutica de origem vegetal, tinha suas próprias escolas. Uma delas, o Eclectic Medical Institute, em Cincinnati, era instituição de nome, com currículo e história. A homeopatia tinha faculdades, hospitais e doutrina própria. O relatório contou a maré baixando:
No ano de 1900 havia vinte e duas faculdades homeopáticas nos Estados Unidos; hoje há quinze. (No original: "In the year 1900 there were twenty-two homeopathic colleges in the United States; to-day there are fifteen.")
De vinte e duas pra quinze em dez anos. E isso era só o começo da queda. Nas décadas seguintes, a corrente eclética e a homeopática perderam suas escolas quase por inteiro. Não por um decreto que proibisse plantas. Na leitura desta tese, foi asfixia institucional. O caminho delas secou entre novas exigências, regulação, universidades, mercado e capital.

O trecho que eles não citam nos livros
Se os números já te incomodaram, respira, porque o próximo parágrafo é o mais duro do relatório inteiro. Ele está no capítulo sobre a educação médica dos negros americanos. Naquele momento, existiam sete escolas de medicina para negros no país. E Flexner escreveu:
Das sete escolas de medicina para negros nos Estados Unidos, cinco não estão neste momento em posição de dar qualquer contribuição de valor para a solução do problema. (No original: "Of the seven medical schools for negroes in the United States, five are at this moment in no position to make any contribution of value to the solution of the problem.")
Cinco das sete, descartadas numa frase. E o resultado histórico foi exatamente esse. Cinco fecharam. Sobraram duas, Howard e Meharry. Aquela caneta ajudou a comprimir por décadas o acesso de negros à medicina nos Estados Unidos. E o tom não era só de planilha. Era de paternalismo racial, escancarado na frase seguinte:
O negro precisa de boas escolas, em vez de muitas escolas. (No original: "The negro needs good schools rather than many schools.")
A Câmara marca a fronteira, porque é assim que a gente trabalha. O relatório recomendou concentrar dinheiro em duas escolas. Ele não foi uma ordem judicial mandando fechar as outras cinco. O fechamento foi o resultado histórico que veio depois, em meio a licenciamento, associações profissionais, universidades, exigências hospitalares, mercado e filantropia. Mas a frase está lá. Assinada. Impressa. E as escolas sumiram.
E as mulheres? O relatório tem um capítulo só pra elas também. A mesma consolidação que fechou escolas pobres encareceu e estreitou os caminhos de formação médica feminina. Menos portas. Custos maiores. Décadas de atraso.
O que se perdeu
Junta as três coisas. As escolas de ervas. As escolas negras. As escolas de mulheres. O que morreu ali, nas décadas seguintes a 1910, não foi só um punhado de prédios ruins. Foi pluralismo. Foram redes inteiras de formação, arquivos de currículo, tradições de ensino que vinham do século XIX, jeitos diferentes de olhar pra doença e pro corpo.
A Câmara não vai te descrever nenhuma dessas tradições como receita, porque isto aqui é um arquivo, não um consultório. O ponto não é te ensinar o que se ensinava. O ponto é você entender o tamanho do que foi apagado. Quando um único modelo vence, o mundo perde os outros mapas. E deixa de saber até que eles existiram.

A tese do petróleo, contada como tese
Agora a teoria completa. A que talvez tenha te trazido até aqui. A Câmara apresenta como tese, com toda a força, e depois separa o que o arquivo prova do que é leitura.
A tese liga os pontos assim. A fortuna dos Rockefeller nasceu do petróleo, na Standard Oil. Essa fortuna financiou as fundações. As fundações financiaram a reforma de Flexner. E a reforma teria empurrado a medicina pra um modelo de remédios que podiam ser patenteados, muitos derivados da química do petróleo e do alcatrão. O resultado, na tese, seria uma medicina desenhada pra tratar sintoma com produto de laboratório, não pra curar com o que a natureza dava de graça. Doença crônica como modelo de negócio.

O que dessa tese o arquivo sustenta? Peças reais, e muitas. A Standard Oil existiu. A fortuna Rockefeller financiou a filantropia. O General Education Board financiou educação e medicina. O relatório classificou escolas, defendeu laboratório e hospital, e registrou o declínio das correntes sectárias. A indústria farmacêutica cresceu usando química orgânica, e alguns produtos vieram mesmo de derivados de alcatrão e petroquímica. Tudo isso é chão firme.
E o que o arquivo não mostra? A ponte final. Não existe, nos documentos desta pesquisa, uma ordem mandando banir plantas. Não existe a frase viral que atribuem a Flexner, aquela do "tudo que não for químico é charlatanismo". Ela não está no relatório. E não está provado que a doença crônica foi inventada de propósito pra dar lucro. O arquivo mostra o dinheiro, a régua e o resultado. A intenção final, de substituir cura natural por remédio de petróleo, é a leitura. Quem defende a tese responde a isso com uma pergunta que vale registrar. Desde quando um império precisa deixar a ordem por escrito? Basta definir a régua, financiar quem cabe nela e esperar. Eles dizem que foi só uma reforma pra melhorar a ciência. O arquivo mostra quem pagou, o que a régua media e quem sumiu quando ela valeu. O resto, você decide.

O que fica
O Relatório Flexner deixou três coisas que a Câmara não esquece.
A primeira, na leitura desta tese. O poder não precisa proibir. Basta definir a régua. Ninguém mandou fechar as escolas de ervas por lei. Criaram um padrão custoso, e muitas não conseguiram pagar a conta.
A segunda. As vítimas tinham nome. Eram as cinco escolas negras que sumiram numa frase. Eram as faculdades de mulheres estreitadas até quase o fim. Eram tradições inteiras de cura que viraram, no vocabulário oficial, "irremediavelmente pobres". Gente, saber, história. Apagados com cara de progresso.
A terceira, e a mais desconfortável. Na leitura dessa tese, você herdou o resultado sem nunca ter visto a decisão. A consulta de dez minutos que termina em receita. O tratamento que ninguém te oferece porque não rende patente. O saber da sua avó que a escola chamou de superstição. Essa cadeia é uma interpretação sobre a régua desenhada em 1910 e o cofre privado que ajudou a fazê-la valer, não uma ordem encontrada no relatório.
O relatório está aí, público, aberto, com cada frase assinada. A Câmara vai seguir puxando esse fio, porque ele não termina em 1910. O arquivo continua.
Assinatura: O Arquivista
Fontes deste dossiê+
- Abraham Flexner, Medical Education in the United States and Canada, Carnegie Foundation Bulletin no. 4, 1910, fac-símile em domínio público: https://archive.org/download/medicaleducatio00flexgoog/medicaleducatio00flexgoog_text.pdf
- Internet Archive, ficha catalográfica do exemplar digitalizado: https://archive.org/metadata/medicaleducatio00flexgoog
- Historiografia aberta sobre o Relatório Flexner, a reforma médica e suas consequências raciais e de gênero (PMC): https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3178858/
- History of the Eclectic Medical Institute, Cincinnati, Ohio, 1845-1902, documento histórico em domínio público: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c9/History_of_the_Eclectic_Medical_Institute%2C_Cincinnati%2C_Ohio%2C_1845-1902_%28IA_b24867500%29.pdf
- National Portrait Gallery / Wikimedia Commons, retrato de John D. Rockefeller, CC0: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:John_D._Rockefeller,_Sr._(edited_and_reloaded).jpg
- Wikimedia Commons, retrato de Frederick T. Gates, domínio público: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:FrederickTGates.jpg
- Library of Congress / Wikimedia Commons, página do New-York Tribune com o General Education Board, sem restrições conhecidas: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Here_are_the_fifteen_men_who_compose_the_General_Board_of_Education._LOC_3797505233.jpg